Carl Edward Sagan, astrônomo, foi e ainda é um dos grandes expoentes do humanismo secular. Divulgou de forma apaixonada a ciência contra o obscurantismo religioso e pseudocientífico, além de ser um grande ativista contra a iminente guerra nuclear entre EUA e Rússia durante a Guerra Fria.
A definição de um ateu e de um humanista geram debates até hoje entre filósofos. Não sou eu quem se atreveria a estabelecer mais uma definição aqui. Mas vale mostrar, na prática, como eu me comporto perante o mundo, pensando como penso. Muitos, estou certo, se identificarão com certas atitudes e ideias. Talvez, isso ajude aos religiosos entender melhor estas visões de mundo.
Primeiramente, sou ateu. Mas isso é uma consequência, não uma causa. A observação do mundo, o estudo de biologia, geologia (não, não precisa ser nada muito aprofundado) e de outras matérias me levaram a concluir, quase com certeza, de que não há nenhum deus. Não posso dar certeza absoluta, pois, estaria sendo dogmático. Tampouco me definiria como “agnóstico”, pois, as evidências de que tudo tem causas puramente naturais superam com ampla vantagem as evidências (?) de que há um mundo sobrenatural, com deus ou deuses.
Após me perceber como ateu, aos poucos, meu o modo de olhar e interagir com o mundo mudou. Eu percebi, por exemplo, a interferência perniciosa da religião nos governos e me posicionei radicalmente contra este tipo de usurpação do poder secular. Por fim, e graças à LiHS, percebi que eu já era um humanista secular. Não, não precisei estudar nada para isso. Apenas observei o que definiam genericamente como tal e percebi que me encaixava. Neste caso, além de ateu, o que é ser um humanista secular? Não posso falar por todos, mas por mim. Então, vejamos...
Bem, não me importa que as pessoas não gostem de homossexuais, tanto quanto não me incomoda alguém preferir pagode à rock. Mas me incomoda quando tratam homossexuais de forma diferenciada, restringindo-lhes direitos e detratando-os por uma condição que, natural ou não (isso nem importa), diz respeito apenas a eles mesmos.
Também não me importa que as pessoas rezem. Não me incomoda, sequer, que me peçam para participar de uma breve oração antes de uma ceia de Natal. Mas me incomoda, profundamente, que insistam em evangelizar outrem e, no caso de insucesso, partir inclusive para a agressão, seja verbal ou física.
Não me incomoda que discordem radicalmente das minhas ideias. Não me importo, sequer, em descobrir que eu estava totalmente errado. Mas me incomoda quando deixam de discutir ideias e passam a discutir pessoas, partindo para a agressão desnecessária.
Além disso, não me incomoda que as pessoas tenham e pratiquem sua religião. Eu acho até bonitas aquelas igrejas góticas enormes, o coro de crianças, a arte sacra, etc. Mas me incomoda imensamente quando a fé é usada para manipular e extorquir pessoas que, na grande maioria das vezes, realmente acreditam nas boas intenções dos clérigos.
Acho aceitável, ainda, que as pessoas acreditem em dogmas absurdos. Muitas pessoas precisam disso, ainda mais em momentos de desamparo. Mas me incomoda, e muito, quando querem externalizar e universalizar dogmas, impedindo o avanço da ciência ou o tratamento igualitário que o Estado deveria dar aos seus cidadãos.
Como os religiosos, também me incomoda quando zombam desnecessariamente de figuras sagradas. É um tipo de provocação gratuita que não tem retorno positivo algum. Mas me incomoda muito mais quando um fanático decide levar isso até as últimas consequências, matando o zombador.
E o que mais me incomoda, e isso só veremos na religião, são pessoas clamando e declarando que só querem a paz. Só que, na contramão de seus desejos, guerreiam, matam, escravizam e humilham grupos inteiros. Que mundo querem construir assim?
É por causa deste tipo de imposição (pessoas querendo que o mundo seja exatamente do jeito que seus deuses exigem) que o humanista secular deve se informar, deve se posicionar e deve dialogar com a sociedade. Neste ponto, devemos entender que o diálogo deve ser amigável e conciliador, nunca um gesto de humilhação e desprezo pelo modo de pensar alheio. Infelizmente, nem sempre conseguiremos tudo o que consideramos ser melhor para o mundo, já que somos minoria absoluta. Mas se chegarmos ao meio-termo, já teremos cumprido brilhantemente o papel que nos cabe (ou, ao menos, cabe àqueles que decidirem se engajar na construção de um mundo mais secular).
Ser ateu e humanista secular é apenas um rótulo. Isso não implica em obrigações nem deveres. Mas eu, pessoalmente, me incomodo com uma série de coisas, conforme citei acima. E, definitivamente, não pretendo ficar parado. Dentro dos meus conhecimentos, dentro das minhas possibilidades, trabalho para mitigar aqueles problemas. Isso não me torna melhor nem pior do que ninguém. Apenas faz eu me sentir bem comigo mesmo por estar trabalhando por um mundo melhor, mais justo e pacífico para todos.
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