segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Dos poucos poetas contemporâneos realmente bons, Arnaldo Antunes merece destaque. Seu disco Iê, Iê, Iê está recheado de versos surpreendentes. Reproduzo aqui o “poema” Envelhecer, que trata de um tema sobre o qual a maioria das pessoas não gosta de falar. É inteligentíssimo.

“A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer
Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer
Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer
Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá
Pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé
Com uns ralos fios de cabelo sobre a testa que não para de crescer
Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender
Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr
Não quero morrer, pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer
Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá”.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Um pouco de humor...inteligente...

(A genialidade de Miguel Paiva nas palavras da personagem "RADICAL CHIC" criada por  ele)
 "O que adianta fazer plástica se você se lembra do governo Jango?"
"Certas dietas são simples. É só cortar açúcar, frituras, massas, molhos, bebidas alcoólicas, pães, biscoitos e os pulsos."
"Que me despreze, me maltrate, me agrida, tudo bem. Mas não falar de mim nem pro analista, é demais."
"Dizem que estou ficando amarga, enjoada, ácida, sem graça. Não é verdade. É só colocar limão, adoçante, sexo, gelo, brilhantes e mexer gostoso, que eu fico maravilhosa!"
"Adoro quando os feirantes, os porteiros e os pedreiros do meu bairro me chamam de gostosa. É a comunidade solidária!"
"Paulo era lindo, sensível, carinhoso, engraçado, elegante, delicado, gostoso, honesto, companheiro, discreto... e gay."
"E aí a gente vai sair daqui, vai para um motel, aí vai transar, aí vai querer de novo, aí eu me apaixono, aí você vai dizer que não quer compromisso, aí eu vou achar você um babaca, aí a gente vai brigar, aí eu vou te odiar... Tem certeza de que ainda quer saber o meu nome?"
"Sexo seguro, pra mim, é transar com o melhor amigo."
"Faço dieta americana, uso produtos franceses, malho com um personal neozelandês, faço localizada com uma russa, e não adianta. Não consigo diminuir essa  bunda brasileira."
"Terminei com o Betão. A gente se entendia superlegal, gostava das mesmas coisas, tinha tesão um no outro, se tratava com carinho, detestava o cinema  iraniano... mas faltava conflito, entende?"
"Faço meditação, aeróbica, judô, musculação. Jogo xadrez, vídeo game, King e batalha-naval. Estudo antropologia, física quântica, matemática e arqueologia. Escalo montanhas, faço voo livre, salto de paraquedas. Leio, escrevo, toco piano, pinto e bordo. Ufa!!!!! O que a gente não faz para  compensar a falta de sexo gostoso".
"Casamento é loteria. Agora, me responda, com sinceridade: quantas vezes você já ganhou na loteria?"



quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Eduardo Galeano, a beleza em palavras

Galeano iniciou sua carreira jornalística no início da década de 1960 como editor do Marcha, influente jornal semanal. Foi também editor do diário Época e editor-chefe do jornal universitário por dois anos. Em 1971 escreveu sua obra-prima As Veias Abertas da América Latina.
Em 1973, com o golpe militar do Uruguai, Galeano é preso e mais tarde forçado a se exilar na Argentina, onde lançou Crisis, uma revista sobre cultura. Em 1976, com o sangrento golpe militar liderado pelo general Jorge Videla, tem seu nome colocado na lista dos esquadrões de morte e, temendo por sua vida, exila-se na Espanha, onde deu início à trilogia Memória do Fogo. Em 1985, com a redemocratização de seu país, Galeano retornou a Montevidéu, onde vive ate hoje.
Em princípios de 2007, Galeano caiu seriamente doente, mas recuperou-se, após uma bem-sucedida cirurgia em Montevidéu.
A obra mais conhecida de Galeano é, sem dúvida, As Veias Abertas da América Latina. Nela, analisa a História da América Latina como um todo desde o período colonial até a contemporaneidade, argumentando contra o que considera como exploração econômica e política do povo latino-americano primeiro pela Europa e depois pelos Estados Unidos da América. O livro tornou-se um clássico entre os membros da esquerda latino-americana.
Memória do Fogo é uma trilogia da História das Américas. Os personagens são figuras históricas: generais, artistas, revolucionários, operários, conquistadores e conquistados, que são retratados em pequenos episódios que refletem o período colonial do continente. Começa com os mitos dos povos pré-colombianos e termina no início da década de 1980. Na obra, Galeano destaca não apenas a opressão colonial, mas também atos individuais e coletivos de resistência. A obra foi aclamada pela crítica literária e Galeano foi comparado a John Dos Passos e Gabriel García Márquez. Ronald Wright, do suplemento literário do The Times, escreveu que "os grandes escritores dissolveram gêneros antigos e encontraram novos. Esta trilogia de um dos mais ousados e talentosos da América Latina é impossível de classificar".
O Livro dos Abraços é uma coleção de histórias curtas e muitas vezes líricas, apresentando as visões de Galeano em relação a temas diversos como emoções, arte, política e valores. A obra também oferece uma crítica mordaz à sociedade capitalista moderna, com o autor defendendo aquilo que acredita ser uma mentalidade ideal à sociedade. Para Jay Parini, do suplemento literário do The New York Times, é talvez a obra mais ousada do autor.
Como ávido fã de futebol, Galeano escreveu O futebol ao sol e à sombra, que revisa a trajetória histórica do jogo. O autor o compara com uma performance teatral e com a guerra; critica sua aliança profana com corporações globais ao mesmo tempo em que ataca intelectuais de esquerda que rejeitam o jogo e seu apelo às massas por motivos ideológicos.
Em seu livro mais recente, Espelhos, o autor tem o intuito de recontar episódios que a história oficial camuflou. Galeano se define como um escritor que remexe no lixão da história mundial.
Apesar da clara inspiração e relevância histórica de suas obras, Galeano nega o caráter meramente histórico destas, comentando que é "um autor obcecado com a lembrança, com a lembrança do passado da América e, sobretudo, da América Latina, uma terra intimamente condenada à amnésia".

Eduardo Galeano - A utopia está no horizonte



"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Bonecas

“Se o atrativo é o que se vê, por que o espanto ao saber que a média atual de durabilidade conjugal no Brasil é de sete anos? Como exigir que homens se interessem por mulheres que carecem de atributos físicos ou quando estes são vencidos pela idade? Pena que ainda não inventaram botox para a alma. E nem cirurgia plástica para a subjetividade”. (Frei Betto - A difícil arte de ser mulher)
Até a década de 1960, a mulher (com raras exceções) tomava conta de seu marido, seus filhos e de sua casa, situação que não expunha sua imagem além dos limites familiares. Isto quando se fala da mulher comum, no máximo de classe média. Com seu ingresso no mercado de trabalho, os interesses femininos e a preocupação com a aparência sofreram transformações inimagináveis e deu no que deu: as mulheres passaram à idolatria da aparência perfeita.
Há quem diga que se trata de uma evolução, mas também há quem considere tal atitude como uma perda de humanidade, senão vejamos um sem número de “bonecas” de todas as idades com rostos disformes pelo excesso de “procedimentos” que visam a amenizar as marcas do tempo.
Em nome da vaidade, mulheres se transformam em apenas um rosto ou um corpo fabricado por cirurgiões que, a cada dia, aumentam sua conta bancária à custa da luta contra o tempo. Frei Betto foi muito feliz ao escrever o texto de onde foi retirado o trecho acima, que não resisti em usá-lo nestas breves considerações.

As transições da idade na vida da mulher



            Geralmente, ouve-se falar que as mulheres, a cada transição de idade, sofrem crises de identidade que se agravam à medida que avançam décadas: de trinta para quarenta, de quarenta para cinquenta, etc.
            Tenho cinquenta e seis anos, portanto vivi duas transições e caminho para mais uma, rumo aos sessenta anos. A experiência mostrou-me que não dói nada avançar pelo tempo adentro, mais numa espécie de transmutação de nós mesmas do que num processo degenerativo. Talvez pense desta maneira porque, antes de qualquer coisa, busco estar bem comigo mesma, sem me importar com concepções do senso comum.
            Gonzaguinha, em uma música lindíssima, diz exatamente o que eu diria, caso fosse poeta: “Hoje eu me gosto muito mais, porque me entendo muito mais também...” 

sábado, 18 de dezembro de 2010

Grande Clarice

O álbum de Pagu - Nascimento, vida, Paixão e morte.
martinellamente escancara as cento e cinquenta e quatro guelas...

Era filha da lua...
Era filha do sol...

Da lua que aparece serena e suave no céu , amamentando eternamente o Cavaleiro de S. Jorge...Barrigudinha

Do pai sol, amado D. decorador de quadros futuristas...
O pai dela gosta de bolinar nos outros...
E Pagu nasceu...

de olhos terrivelmente molengos
e boca de cheramy...
O álbum de Pagu - Nascimento, vida, Paixão e morte.

Nascimento...

Além...muito além do Martinelli...
martinellamente escancara as cento e cinquenta e quatro guelas...

Era filha da lua...
Era filha do sol...

Da lua que aparece serena e suave no céu , amamentando eternamente o Cavaleiro de S. Jorge...Barrigudinha

Do pai sol, amado D. decorador de quadros futuristas...
O pai dela gosta de bolinar nos outros...
E Pagu nasceu...
O álbum de Pagu - Nascimento, vida, Paixão e morte.

Nascimento...

Além...muito além do Martinelli...
martinellamente escancara as cento e cinquenta e quatro guelas...

Era filha da lua...
Era filha do sol...

Da lua que aparece serena e suave no céu , amamentando eternamente o Cavaleiro de S. Jorge...Barrigudinha

Do pai sol, amado D. decorador de quadros futuristas...
O pai dela gosta de bolinar nos outros...
E Pagu nasceu...

de olhos terrivelmente molengos
e boca de cheramy...

E o guerreiro cantou.
E Freud desejou...

Mandioca braba faz mal.
Pagu era selvagem
Inteligente
E besta...

Comeu da mandioca braba...
E fez mal.

Pagu / 1929
de olhos terrivelmente molengos
e boca de cheramy...

E o guerreiro cantou.
E Freud desejou...

Mandioca braba faz mal.
Pagu era selvagem
Inteligente
E besta...


Declaração de amor
Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguajem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Ás vezes se assusta com o imprevisto de uma frase. Eu gosto de manejá-la - como gostai a de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escreve-nos atamos fazendo do 
túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertence r, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queda não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Clarice Lispector in A descoberta do mundo. 

Pobre Soledade Pobre

Para felicidade de poucos, nossa querida Soledade anda na contramão da história: vota (e elege), em todos os níveis, candidatos comprometidos com o poder econômico, como se aqui vivessem apenas milionários que não ligam para quem se preocupa com a melhoria da qualidade de vida das classes mais baixas. Será que Soledade se incomoda com o fato de “pobres poderem financiar sua casa, fazer compras nos supermercados, ou ainda ingressarem em uma universidade? Para mim, que nasci e vou morrer aqui, é incompreensível o resultado deste segundo turno da eleição presidencial, como tem sido incompreensível os últimos resultados das eleições municipais. Portanto, pobre Soledade pobre, que já perdeu muitos de seus filhos por negar a eles a oportunidade de desenvolvimento.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um pouco da história dos curta metragem

Na ainda curta história do cinema, pouco mais de cem anos, já houve três padrões de durações para os filmes: quarenta e cinco segundos, quinze minutos, duas horas.
O primeiro padrão, estabelecido pelos irmãos Lumière em 1895, foi de 45 a 50 segundos. No caso, a bunda de cavalo é fácil de ser encontrada. O filme usado pelos Lumière vinha em rolos de 35 mm de largura por 15 metros de comprimento, os quais, passando pelo cinematógrafo na velocidade média de então (entre 16 e 18 quadros por segundo) dava um tempo de filmagem e de projeção em torno de 45 a 50 segundos.
É claro que, poucos anos depois, se descobriu que os filmes podiam ser montados, a princípio apenas emendados fisicamente uns nos outros, e logo conceitualmente agrupados para contar uma única história. Haveria algum limite pra isso? Teoricamente, os carretéis dos projetores poderiam crescer indefinidamente. Mas não as latas em que os filmes prontos eram armazenados e transportados. Por isso, a partir da virada do século 19 para o século 20, o padrão de duração dos filmes exibidos nos cinemas do mundo inteiro, quer se tratasse de comédias, dramas românticos ou de aventuras, passou a ser de 13 a 15 minutos - exatamente o tempo de projeção, com a velocidade média da época, de mil pés de filme 35 mm, ou o conteúdo máximo de uma lata, a unidade básica de armazenamento e transporte dos filmes de uma sala de exibição para outra. Em seguida, é claro, foram feitas experiências de filmes mais longos. Mas não eram filmes de 30 ou 45 minutos, eram filmes de 2 ou 3 latas, de 2 ou 3 rolos. Ou seja, a unidade padrão, a bunda de cavalo, permanecia.
A primeira experiência bem sucedida comercialmente de um filme de duração muito acima do padrão foi feita por David Wark Griffith, nos Estados Unidos, em 1915, com "O Nascimento de uma nação". Era um filme de mais de duas horas de duração, que contava uma história com uma complexidade e quantidade de personagens e eficiência narrativa jamais vistas, que custou a fortuna (para a época) de 110 mil dólares e foi assistido, só nos EUA, por mais de 100 milhões de espectadores. E, claro, criou um novo padrão, uma nova bunda de cavalo: a duração, se não definitiva, bastante duradoura, uma vez que permanece como padrão até hoje, de duas horas de espetáculo cinematográfico.
E eu me divirto em pensar que, se o primeiro padrão de duração dos filmes tinha origem no processo de fabricação original dos rolos de negativo, e se o segundo padrão tinha a ver com o sistema de transporte das cópias, o terceiro e mais duradouro padrão terminou ficando até os nosso dias muito provavelmente por se referir diretamente ao espectador e suas fraquezas. Ora, não é por acaso que duas horas é também a duração padrão de espetáculos de teatro ou de música: é o tempo limite que uma platéia média consegue ficar sentada coletivamente numa sala, sem que a maioria comece a sentir fome ou dor nas costas ou principalmente vontade de fazer xixi.
A partir da década de 20, no mundo inteiro, entende-se "filme" como uma história contada em imagens (e, mais tarde, também sons) com duração entre 90 e 120 minutos. Qualquer coisa que sair deste padrão necessita de um qualificativo extra: filme de curta-metragem, filme de duração extraordinária.
Mas, apesar de ter sido superado como padrão, o curta-metragem permaneceu na história do cinema como duração alternativa para alguns tipos específicos de filmes. Em primeiro lugar, para as comédias ligeiras, de humor visual, que contavam histórias que se resolviam satisfatoriamente em um tempo médio de 15 minutos - uma tradição que vem do cinema mudo, é claro, com os filmes curtos de Chaplin, Buster Keaton, Max Linder, toda a história do pastelão, mas que chega ao período falado com o Gordo e o Magro e invade a televisão com Os Três Patetas. E é no novo veículo que a comédia curta, estendendo-se um pouco mais para permitir a inserção de intervalos comerciais, chega ao formato de 25 a 30 minutos da "sitcom".
Em segundo lugar, o curta surge como duração adequada para o cinema experimental, desde 1928, quando Luis Buñuel e Salvador Dali realizam "Um Cão andaluz", provavelmente o filme mais chocante, surpreendente e revolucionário da história do cinema - e tudo isso em apenas 17 minutos de duração. A partir daí, boa parte dos "filmes-manifesto" buscam a duração curta para as suas experiências radicais de linguagem, tando as bem sucedidas quanto as apenas curiosas ou mesmo as insuportavelmente chatas.
Também no campo do documentário e do filme social, principalmente a partir dos anos 40, com os trabalhos dos ingleses John Grierson e Basil Wright, o curta-metragem de 20 a 30 minutos permanece como padrão, outro que também vai mais tarde aumentar de tamanho para chegar à televisão.
Antes disso, entre as décadas de 20 e 30, Walt Disney e outros pioneiros definem 6 a 8 minutos como o tempo ideal para os filmes de animação. Ainda que o próprio Disney vá mais tarde constituir um verdadeiro império com seus longas animados, foi com os curtas que ele ganhou a maior parte dos seus mais de 30 Oscars. E foi também a partir do curta de animação, de seu ritmo e forma de utilização da linguagem, de sua evolução em termos de capacidade de síntese e impacto visual, que surgiu o produto audiovisual que movimenta a maior quantidade de dólares no mundo inteiro hoje em dia: o comercial de 30 segundos.
Enfim, a partir dos anos 50, com a aceitação do cinema como matéria acadêmica (idéia até então restrita à União Soviética), e com a conseqüente disseminação de escolas de cinema pelo mundo todo, inclusive os Estados Unidos, o curta-metragem veio a ser adotado como formato por excelência do filme de estudante.
E no Brasil? Na maior parte do século, é claro, a evolução do cinema brasileiro esteve condicionada ao que acontecia no resto do mundo, especialmente Europa e Estados Unidos. Mas nem sempre. Certamente não foi assim no início dos anos 60, quando o Cinema Novo brasileiro esteve na vanguarda mundial da síntese entre o cinema social do neo-realismo e o cinema autoral da nouvelle vague.
E talvez também não tenha sido assim com a "Escola do Curta" surgida nos anos 80. Ainda está para ser devidamente estudada a importância do cinema brasileiro na revitalização mundial do curta-metragem ocorrida nos últimos 20 anos: seja pela quantidade de festivais dedicados ao formato, pelo espaço aberto nas televisões ou pelos inúmeros fundos de apoio à produção, a verdade é que o curta não é mais apenas espaço de experimentação, ou restrito a gêneros específicos, ou apenas ensaio para a produção de longas. Curta-metragem é hoje nem mais nem menos que um formato de cinema.
E, para isso, tiveram grande importância os filmes de cineastas como Jorge Furtado, Arthur Omar, Francisco César Filho, José Roberto Torero, Cecílio Neto, Rafael Conde, Fernando Severo, etc, mas também as suas circunstâncias de produção. A chamada "Lei do Curta", resultado de uma luta histórica da ABD (Associação Brasileira de Documentaristas), é sem dúvida uma das chaves para se entender este fenômeno.
Criada em 1974, implantada em 1977, reformulada em 1985 e inviabilizada em 1990, a Lei do Curta em poucos anos criou um mercado para a produção e distribuição de filmes de curta-metragem no país. Atraiu os maiores talentos de toda uma geração de cineastas, desestimulada com o declínio do sistema Embrafilme de financiamento para longas. Promoveu a descentralização e a diversidade, gerou novos núcleos de produção, recolocou o Brasil no mapa da inovação cinematográfica.
De lá pra cá, e não só por teimosia ou saudosismo, a produção de curtas no país continuou a existir, em função de mecanismos de produção criados em diversos estados e municípios e também da cada vez mais numerosa vitrine dos festivais. Mas faltava, e continua faltando, um mecanismo de exibição de curtas para o grande público. Algo como o Curta nas Telas de Porto Alegre.
Ao exibir curtas para espectadores de cinema, o Curta nas Telas trata o curta como cinema, não como efêmera atração de festival. Ao superar a obrigatoriedade de exibição, substituindo-a por um acordo possível entre realizadores e exibidores, o Curta nas Telas abre a discussão, também na área cultural, da criação de espaços públicos não estatais, e da redefinição do papel do Estado. Se hovesse no país 10 municípios com a vontade política da Prefeitura de Porto Alegre e de sua Coordenação de Cinema, o debate em torno de uma possível volta da Lei do Curta já teria sido superado na prática. Restariam, é claro, as suas marcas históricas, bem mais visíveis que as dos cavalos da Roma antiga nos ônibus espaciais.
Giba Assis Brasil - texto publicado no Catálogo "5 Anos de Curta nas Telas", SMC/Porto Alegre, setembro de 2001.

Anos de chumbo

Em 1969, a Junta Militar escolhe o novo presidente: o general Emílio Garrastazu Médici. Seu governo é considerado o mais duro e repressivo do período, conhecido como "anos de chumbo". A repressão à luta armada cresce e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são censuradas. Muitos professores, políticos, músicos, artistas e escritores são investigados, presos, torturados ou exilados do país. O DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações e ao Centro de Operações de Defesa Interna) atua como centro de investigação e repressão do governo militar.
O Governo Militar (1964-85) – Implantação da Ditadura Militar 
- uso da repressão / investigação (SNI), censura
- bipartidarismo: ARENA X MDB
- prisões / tortura / exílio (artistas e políticos)
- oposição armada ao regime militar: guerrilha urbana e rural
De acordo com o jornalista Zuenir Ventura, o fanático brigadeiro João Paulo Burnier elaborou um plano criminoso, o Para-Sar. Uma loucura: os pára-quedistas da aeronáutica, secretamente, pegariam os inimigos do regime e jogariam do avião no mar alto, a uns 40 quilômetros da costa. Além disso, havia o projeto de explodir o gasômetro do Rio de Janeiro, começo da avenida Brasil, área industrial e de trânsito engarrafado. Morreriam umas 10 mil pessoas queimadas. Tragédia nacional. Burnier botaria a culpa nos comunistas e, com a população querendo o linchamento dos responsáveis, prenderia os esquerdistas e os executaria sumariamente. Que coisa diabólica, não? Só não se concretizou graças à bravura e ao patriotismo de um militar da aeronáutica: o grande brasileiro capitão Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, o Sérgio Macaco. A operação teve de ser cancelada. Mas o capitão Sérgio foi afastado da Aeronáutica.
O que significa viver sob uma ditadura militar? É exagerado achar que a toda hora tem tanque na rua, soldados desfilando dentro das faculdades. Aparentemente não muda muita coisa, porque você vai às compras, ao dentista, à praia e ao cinema, namora e casa, vê televisão. A não ser o fato de que seu vizinho é oficial do Exército e você sabe que por isso ele manda aqui no prédio (e isso pode ser até bom para a vizinhança), o resto parece bem normal. Mas, se você tiver um pingo de consciência, desconfia que as coisas não vão bem. Existe um cheirinho de esquisitice: as pessoas falam baixo, há uma nuvem de mistério cobrindo o país, o estômago fica pesado demais.
Ninguém podia falar mal do governo. Reclamação na fila do ônibus era uma linha até à cadeia. Estudantes e professores que conversassem sobre política poderiam ser expulsos da escola ou da faculdade, devido ao decreto-lei nº 477 (1969), Imagine o clima dentro da sala de aula. Se o professor contasse aos alunos o que você está lendo neste livro, corria o sério risco de não poder voltar mais à sala de aula. Ou mesmo para a sua própria casa...
_ O que você acha da situação atual?
_ Eu não acho nada! Tinha um amigo que achava muito e hoje ninguém acha ele! To fora!
O que dizer sobre essa loucura toda? Foram rapazes e moças, muitos ainda adolescentes, que tiveram a coragem de abandonar o conforto do lar, a segurança de uma vida encaminhada, a tranqüilidade da vida de jovem de classe média, para combater um regime opressor com armas na mão. Pessoas que dão a vida pelo ideal de libertação de seu povo não podem ser consideradas criminosas. Mesmo que a gente não concorde com os caminhos trilhados. Eles mataram? Certamente. Mas nunca torturaram. Nem enterraram suas vítimas em cemitérios clandestinos. E se o tivessem feito nada disso justificaria a tortura e o assassinato executados pelo governo. Além disso, seria mesmo inadmissível pegar em armas contra um regime antidemocrático que esmagava o povo brasileiro? Que moral uma ditadura tem para definir como deve ser combatida?
Não houve guerrilheiro preso que não fosse barbaramente torturado. Ficar pendurado no pau-de-arara (um cavalete em que o sujeito fica preso pela barra que passa na dobra do joelho, com pés e mãos amarrados juntos) é um dos piores suplícios. Além disso, pontapés, queimaduras de cigarros, choques elétricos, alicates arrancando os mamilos, banhos de ácido, testículos amassados com alicate, arame em brasa introduzido pela uretra, dente arrancado a pontapés, olhos vazados com socos. Mulheres estupradas na frente dos filhos, homens castrados. A lista de atrocidades é infindável.
Os torturadores são animais sádicos. Mas além da maldade pura e simples, havia a necessidade estratégica: a tortura extraía confissões em pouco tempo, dando oportunidade de prender outras pessoas, que também seriam torturadas, revelando mais coisas e assim por diante. Infelizmente, a tortura revelou-se bem eficaz.

Nada...nada...nada...

É comum a afirmação de que o ateísmo conduz ao niilismo, e de que este tira o significado da existência. Na verdade não tira, pois a existência não tem significado algum. Nós também não. O significado é criado por nós. Mas isso não é tudo; há mais um detalhe, e é ele que realmente nos incomoda: com o niilismo, em vez de colocarmos o significado como a base do mundo, colocamos o mundo como a base do significado. Claro que, ao fazê-lo, ruem todos os significados que não possuam relação com a realidade, pois se tornam subordinados a ela, e isso é bastante desejável, pois mantém nossos pensamentos com os pés no chão. Noutras palavras, o niilismo nos proíbe de recorrer à metafísica em busca de consolos emocionais.

Liberdade

Se o homem é livre para escolher o seu caminho e fazer da sua vida um projeto que dê sentido a ela, isto só pode ser realizado se os seus atos articularem-se com os demais. Não há liberdade de um só. É impossível alguém ser livre numa caverna habitada por escravos, por conseguinte a liberdade de um somente pode ser concretizada obtendo-se a liberdade de todos. Ora, esta conclusão tornava obrigatório o engajamento, de participar ativamente das coisas do mundo. Não é possível alguém trancar-se ou fechar-se numa redoma qualquer e desinteressar-se daquilo que o cerca. É praticamente imoral voltar às costas aos outros, pois “o homem está condenado a ser livre, com outros homens livres”. (Sartre)