sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um pouco da história dos curta metragem

Na ainda curta história do cinema, pouco mais de cem anos, já houve três padrões de durações para os filmes: quarenta e cinco segundos, quinze minutos, duas horas.
O primeiro padrão, estabelecido pelos irmãos Lumière em 1895, foi de 45 a 50 segundos. No caso, a bunda de cavalo é fácil de ser encontrada. O filme usado pelos Lumière vinha em rolos de 35 mm de largura por 15 metros de comprimento, os quais, passando pelo cinematógrafo na velocidade média de então (entre 16 e 18 quadros por segundo) dava um tempo de filmagem e de projeção em torno de 45 a 50 segundos.
É claro que, poucos anos depois, se descobriu que os filmes podiam ser montados, a princípio apenas emendados fisicamente uns nos outros, e logo conceitualmente agrupados para contar uma única história. Haveria algum limite pra isso? Teoricamente, os carretéis dos projetores poderiam crescer indefinidamente. Mas não as latas em que os filmes prontos eram armazenados e transportados. Por isso, a partir da virada do século 19 para o século 20, o padrão de duração dos filmes exibidos nos cinemas do mundo inteiro, quer se tratasse de comédias, dramas românticos ou de aventuras, passou a ser de 13 a 15 minutos - exatamente o tempo de projeção, com a velocidade média da época, de mil pés de filme 35 mm, ou o conteúdo máximo de uma lata, a unidade básica de armazenamento e transporte dos filmes de uma sala de exibição para outra. Em seguida, é claro, foram feitas experiências de filmes mais longos. Mas não eram filmes de 30 ou 45 minutos, eram filmes de 2 ou 3 latas, de 2 ou 3 rolos. Ou seja, a unidade padrão, a bunda de cavalo, permanecia.
A primeira experiência bem sucedida comercialmente de um filme de duração muito acima do padrão foi feita por David Wark Griffith, nos Estados Unidos, em 1915, com "O Nascimento de uma nação". Era um filme de mais de duas horas de duração, que contava uma história com uma complexidade e quantidade de personagens e eficiência narrativa jamais vistas, que custou a fortuna (para a época) de 110 mil dólares e foi assistido, só nos EUA, por mais de 100 milhões de espectadores. E, claro, criou um novo padrão, uma nova bunda de cavalo: a duração, se não definitiva, bastante duradoura, uma vez que permanece como padrão até hoje, de duas horas de espetáculo cinematográfico.
E eu me divirto em pensar que, se o primeiro padrão de duração dos filmes tinha origem no processo de fabricação original dos rolos de negativo, e se o segundo padrão tinha a ver com o sistema de transporte das cópias, o terceiro e mais duradouro padrão terminou ficando até os nosso dias muito provavelmente por se referir diretamente ao espectador e suas fraquezas. Ora, não é por acaso que duas horas é também a duração padrão de espetáculos de teatro ou de música: é o tempo limite que uma platéia média consegue ficar sentada coletivamente numa sala, sem que a maioria comece a sentir fome ou dor nas costas ou principalmente vontade de fazer xixi.
A partir da década de 20, no mundo inteiro, entende-se "filme" como uma história contada em imagens (e, mais tarde, também sons) com duração entre 90 e 120 minutos. Qualquer coisa que sair deste padrão necessita de um qualificativo extra: filme de curta-metragem, filme de duração extraordinária.
Mas, apesar de ter sido superado como padrão, o curta-metragem permaneceu na história do cinema como duração alternativa para alguns tipos específicos de filmes. Em primeiro lugar, para as comédias ligeiras, de humor visual, que contavam histórias que se resolviam satisfatoriamente em um tempo médio de 15 minutos - uma tradição que vem do cinema mudo, é claro, com os filmes curtos de Chaplin, Buster Keaton, Max Linder, toda a história do pastelão, mas que chega ao período falado com o Gordo e o Magro e invade a televisão com Os Três Patetas. E é no novo veículo que a comédia curta, estendendo-se um pouco mais para permitir a inserção de intervalos comerciais, chega ao formato de 25 a 30 minutos da "sitcom".
Em segundo lugar, o curta surge como duração adequada para o cinema experimental, desde 1928, quando Luis Buñuel e Salvador Dali realizam "Um Cão andaluz", provavelmente o filme mais chocante, surpreendente e revolucionário da história do cinema - e tudo isso em apenas 17 minutos de duração. A partir daí, boa parte dos "filmes-manifesto" buscam a duração curta para as suas experiências radicais de linguagem, tando as bem sucedidas quanto as apenas curiosas ou mesmo as insuportavelmente chatas.
Também no campo do documentário e do filme social, principalmente a partir dos anos 40, com os trabalhos dos ingleses John Grierson e Basil Wright, o curta-metragem de 20 a 30 minutos permanece como padrão, outro que também vai mais tarde aumentar de tamanho para chegar à televisão.
Antes disso, entre as décadas de 20 e 30, Walt Disney e outros pioneiros definem 6 a 8 minutos como o tempo ideal para os filmes de animação. Ainda que o próprio Disney vá mais tarde constituir um verdadeiro império com seus longas animados, foi com os curtas que ele ganhou a maior parte dos seus mais de 30 Oscars. E foi também a partir do curta de animação, de seu ritmo e forma de utilização da linguagem, de sua evolução em termos de capacidade de síntese e impacto visual, que surgiu o produto audiovisual que movimenta a maior quantidade de dólares no mundo inteiro hoje em dia: o comercial de 30 segundos.
Enfim, a partir dos anos 50, com a aceitação do cinema como matéria acadêmica (idéia até então restrita à União Soviética), e com a conseqüente disseminação de escolas de cinema pelo mundo todo, inclusive os Estados Unidos, o curta-metragem veio a ser adotado como formato por excelência do filme de estudante.
E no Brasil? Na maior parte do século, é claro, a evolução do cinema brasileiro esteve condicionada ao que acontecia no resto do mundo, especialmente Europa e Estados Unidos. Mas nem sempre. Certamente não foi assim no início dos anos 60, quando o Cinema Novo brasileiro esteve na vanguarda mundial da síntese entre o cinema social do neo-realismo e o cinema autoral da nouvelle vague.
E talvez também não tenha sido assim com a "Escola do Curta" surgida nos anos 80. Ainda está para ser devidamente estudada a importância do cinema brasileiro na revitalização mundial do curta-metragem ocorrida nos últimos 20 anos: seja pela quantidade de festivais dedicados ao formato, pelo espaço aberto nas televisões ou pelos inúmeros fundos de apoio à produção, a verdade é que o curta não é mais apenas espaço de experimentação, ou restrito a gêneros específicos, ou apenas ensaio para a produção de longas. Curta-metragem é hoje nem mais nem menos que um formato de cinema.
E, para isso, tiveram grande importância os filmes de cineastas como Jorge Furtado, Arthur Omar, Francisco César Filho, José Roberto Torero, Cecílio Neto, Rafael Conde, Fernando Severo, etc, mas também as suas circunstâncias de produção. A chamada "Lei do Curta", resultado de uma luta histórica da ABD (Associação Brasileira de Documentaristas), é sem dúvida uma das chaves para se entender este fenômeno.
Criada em 1974, implantada em 1977, reformulada em 1985 e inviabilizada em 1990, a Lei do Curta em poucos anos criou um mercado para a produção e distribuição de filmes de curta-metragem no país. Atraiu os maiores talentos de toda uma geração de cineastas, desestimulada com o declínio do sistema Embrafilme de financiamento para longas. Promoveu a descentralização e a diversidade, gerou novos núcleos de produção, recolocou o Brasil no mapa da inovação cinematográfica.
De lá pra cá, e não só por teimosia ou saudosismo, a produção de curtas no país continuou a existir, em função de mecanismos de produção criados em diversos estados e municípios e também da cada vez mais numerosa vitrine dos festivais. Mas faltava, e continua faltando, um mecanismo de exibição de curtas para o grande público. Algo como o Curta nas Telas de Porto Alegre.
Ao exibir curtas para espectadores de cinema, o Curta nas Telas trata o curta como cinema, não como efêmera atração de festival. Ao superar a obrigatoriedade de exibição, substituindo-a por um acordo possível entre realizadores e exibidores, o Curta nas Telas abre a discussão, também na área cultural, da criação de espaços públicos não estatais, e da redefinição do papel do Estado. Se hovesse no país 10 municípios com a vontade política da Prefeitura de Porto Alegre e de sua Coordenação de Cinema, o debate em torno de uma possível volta da Lei do Curta já teria sido superado na prática. Restariam, é claro, as suas marcas históricas, bem mais visíveis que as dos cavalos da Roma antiga nos ônibus espaciais.
Giba Assis Brasil - texto publicado no Catálogo "5 Anos de Curta nas Telas", SMC/Porto Alegre, setembro de 2001.

Anos de chumbo

Em 1969, a Junta Militar escolhe o novo presidente: o general Emílio Garrastazu Médici. Seu governo é considerado o mais duro e repressivo do período, conhecido como "anos de chumbo". A repressão à luta armada cresce e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são censuradas. Muitos professores, políticos, músicos, artistas e escritores são investigados, presos, torturados ou exilados do país. O DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações e ao Centro de Operações de Defesa Interna) atua como centro de investigação e repressão do governo militar.
O Governo Militar (1964-85) – Implantação da Ditadura Militar 
- uso da repressão / investigação (SNI), censura
- bipartidarismo: ARENA X MDB
- prisões / tortura / exílio (artistas e políticos)
- oposição armada ao regime militar: guerrilha urbana e rural
De acordo com o jornalista Zuenir Ventura, o fanático brigadeiro João Paulo Burnier elaborou um plano criminoso, o Para-Sar. Uma loucura: os pára-quedistas da aeronáutica, secretamente, pegariam os inimigos do regime e jogariam do avião no mar alto, a uns 40 quilômetros da costa. Além disso, havia o projeto de explodir o gasômetro do Rio de Janeiro, começo da avenida Brasil, área industrial e de trânsito engarrafado. Morreriam umas 10 mil pessoas queimadas. Tragédia nacional. Burnier botaria a culpa nos comunistas e, com a população querendo o linchamento dos responsáveis, prenderia os esquerdistas e os executaria sumariamente. Que coisa diabólica, não? Só não se concretizou graças à bravura e ao patriotismo de um militar da aeronáutica: o grande brasileiro capitão Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, o Sérgio Macaco. A operação teve de ser cancelada. Mas o capitão Sérgio foi afastado da Aeronáutica.
O que significa viver sob uma ditadura militar? É exagerado achar que a toda hora tem tanque na rua, soldados desfilando dentro das faculdades. Aparentemente não muda muita coisa, porque você vai às compras, ao dentista, à praia e ao cinema, namora e casa, vê televisão. A não ser o fato de que seu vizinho é oficial do Exército e você sabe que por isso ele manda aqui no prédio (e isso pode ser até bom para a vizinhança), o resto parece bem normal. Mas, se você tiver um pingo de consciência, desconfia que as coisas não vão bem. Existe um cheirinho de esquisitice: as pessoas falam baixo, há uma nuvem de mistério cobrindo o país, o estômago fica pesado demais.
Ninguém podia falar mal do governo. Reclamação na fila do ônibus era uma linha até à cadeia. Estudantes e professores que conversassem sobre política poderiam ser expulsos da escola ou da faculdade, devido ao decreto-lei nº 477 (1969), Imagine o clima dentro da sala de aula. Se o professor contasse aos alunos o que você está lendo neste livro, corria o sério risco de não poder voltar mais à sala de aula. Ou mesmo para a sua própria casa...
_ O que você acha da situação atual?
_ Eu não acho nada! Tinha um amigo que achava muito e hoje ninguém acha ele! To fora!
O que dizer sobre essa loucura toda? Foram rapazes e moças, muitos ainda adolescentes, que tiveram a coragem de abandonar o conforto do lar, a segurança de uma vida encaminhada, a tranqüilidade da vida de jovem de classe média, para combater um regime opressor com armas na mão. Pessoas que dão a vida pelo ideal de libertação de seu povo não podem ser consideradas criminosas. Mesmo que a gente não concorde com os caminhos trilhados. Eles mataram? Certamente. Mas nunca torturaram. Nem enterraram suas vítimas em cemitérios clandestinos. E se o tivessem feito nada disso justificaria a tortura e o assassinato executados pelo governo. Além disso, seria mesmo inadmissível pegar em armas contra um regime antidemocrático que esmagava o povo brasileiro? Que moral uma ditadura tem para definir como deve ser combatida?
Não houve guerrilheiro preso que não fosse barbaramente torturado. Ficar pendurado no pau-de-arara (um cavalete em que o sujeito fica preso pela barra que passa na dobra do joelho, com pés e mãos amarrados juntos) é um dos piores suplícios. Além disso, pontapés, queimaduras de cigarros, choques elétricos, alicates arrancando os mamilos, banhos de ácido, testículos amassados com alicate, arame em brasa introduzido pela uretra, dente arrancado a pontapés, olhos vazados com socos. Mulheres estupradas na frente dos filhos, homens castrados. A lista de atrocidades é infindável.
Os torturadores são animais sádicos. Mas além da maldade pura e simples, havia a necessidade estratégica: a tortura extraía confissões em pouco tempo, dando oportunidade de prender outras pessoas, que também seriam torturadas, revelando mais coisas e assim por diante. Infelizmente, a tortura revelou-se bem eficaz.

Nada...nada...nada...

É comum a afirmação de que o ateísmo conduz ao niilismo, e de que este tira o significado da existência. Na verdade não tira, pois a existência não tem significado algum. Nós também não. O significado é criado por nós. Mas isso não é tudo; há mais um detalhe, e é ele que realmente nos incomoda: com o niilismo, em vez de colocarmos o significado como a base do mundo, colocamos o mundo como a base do significado. Claro que, ao fazê-lo, ruem todos os significados que não possuam relação com a realidade, pois se tornam subordinados a ela, e isso é bastante desejável, pois mantém nossos pensamentos com os pés no chão. Noutras palavras, o niilismo nos proíbe de recorrer à metafísica em busca de consolos emocionais.

Liberdade

Se o homem é livre para escolher o seu caminho e fazer da sua vida um projeto que dê sentido a ela, isto só pode ser realizado se os seus atos articularem-se com os demais. Não há liberdade de um só. É impossível alguém ser livre numa caverna habitada por escravos, por conseguinte a liberdade de um somente pode ser concretizada obtendo-se a liberdade de todos. Ora, esta conclusão tornava obrigatório o engajamento, de participar ativamente das coisas do mundo. Não é possível alguém trancar-se ou fechar-se numa redoma qualquer e desinteressar-se daquilo que o cerca. É praticamente imoral voltar às costas aos outros, pois “o homem está condenado a ser livre, com outros homens livres”. (Sartre)