terça-feira, 20 de março de 2012
Ditirambos de Dionísio - O perigo persiste
"Paulo quis os fins, portanto quis também os meios... O que ele mesmo não acreditava, acreditavam os idiotas aos quais lançou a sua doutrina. - Sua necessidade era o poder, com Paulo o sacerdote quis novamente chegar ao poder - ele tinha utilidade apenas para conceitos, doutrinas, símbolos com que são tiranizadas as massas, são formados os rebanhos. A esse instinto de teólogo eu faço guerra: encontrei sua pista em toda a parte. Quem possui sangue de teólogo no corpo, já tem ante todas as coisas uma atitude enviesada e desonesta. O páthos ( Pathos ) que daí se desenvolve chama a si mesmo de fé: Cerrar os olhos a si mesmo de uma vez por todas, para não sofrer da visão da incurável falsidade. Dessa defeituosa ótica em relação às coisas a pessoa faz uma moral, uma virtude, uma santidade, vincula a boa consciência à falsa visão - exige que nenhuma outra ótica possa mais ter valor, após tornar sacrossanta a sua própria, usando as palavras "Deus", "salvação", "eternidade". Desencavei o instinto de teólogo em toda a parte: é a mais disseminada, a forma realmente subterrânea de falsidade que existe na Terra. O que um teólogo percebe como verdadeiro tem de ser falso: aí tem quase que um critério da verdade: seu mais fundo instinto de conservação proíbe que a realidade receba honras ou mesmo assuma a palavra em algum ponto. Até onde vai a influência do teólogo, o julgamento de valor está de cabeça para baixo, os conceitos de "verdadeiro" e "falso" estão necessariamente invertidos: o que é mais prejudicial à vida chama-se "verdadeiro", o que a realça, eleva, afirma, justifica, e faz triunfar chama-se "falso"... Se acontece dos teólogos, através da "consciência" dos príncipes (ou dos povos --), estenderem a mão para o poder, não duvidemos do que no fundo sempre se dá: a vontade de fim, a vontade niilista quer alcançar o poder... É necessário dizer quem consideramos nossa antítese -- os teólogos e todos os que têm sangue de teólogo nas veias. O que é bom? --Tudo o que eleva o sentimento de poder a vontade de poder o próprio poder no homem. O que é mau? -- Tudo o que vem da fraqueza. O que é felicidade? -- O sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência é superada. O problema que aqui coloco não é o que sucederá a humanidade na seqüência dos seres (-- o homem é um final --); mas sim que tipo de homem deve-se cultivar, deve-se querer, como de mais alto valor, mais digno de vida, mais certo de futuro. A humanidade não representa um desenvolvimento para melhor ou mais forte ou mais elevado, do modo como como hoje se acredita. O "progresso" é apenas uma idéia moderna, ou seja, uma idéia errada." Fredrich Nietzsche. Extraído do livro: O Anticristo : Maldição ao cristianismo : Ditirambos de Dionísio (1888).
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