Um estilo próprio de pontuar aliado à criação de um dos universos mais sólidos e pessoais da literatura mundial fizeram do escritor José Saramago, morto em 2010, aos 87 anos, nas Ilhas Canárias, um dos nomes mais importantes da cultura do século XX e muitas vezes me pego pensando que, a partir de então, não haverá textos novos para que possamos continuar usufruindo de tamanho talento. Resta-nos então reler e reler as maravilhas que este mestre da Literatura nos legou, como o seu fantástico Caim, que aqui coloco um trecho:
“(...) Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo”.
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